Móveis assinados por designers do mundo todo feitos com
matéria-prima sustentável e fabricados no País. Essa é a proposta da marca A Lot
Of Brasil, lançada em abril no Salão do Móvel de Milão, e que chega ao mercado
brasileiro em setembro. Os sócios investiram R$ 3,5 milhões em pesquisa,
desenvolvimento e estruturação da marca e devem colocar mais R$ 1,5 milhão no
empreendimento até junho de 2014.
A marca foi idealizada pelo empresário e designer Pedro
Franco quando ele percebeu que os gastos para importar os móveis à venda em sua
loja - A Lot Of - estavam muito altos. Os custos o fizeram, inclusive, importar
apenas duas marcas em vez de oito. O dinheiro poupado foi usado no novo
projeto.
O empresário lembra que, de maneira geral, o design
brasileiro depende muito de processos artesanais e tem como característica a
autoprodução. "Isso resulta em produtos que não são nada acessíveis porque
quando você produz um lote, sem a máquina por trás, sobretudo em um cenário de
alto custo da mão de obra e dos imóveis, significa produtos na ponta com preços
elevados", afirma Franco.
Disposto a mudar esse cenário, o empresário pesquisou
durante dois anos fornecedores brasileiros de alta tecnologia dentro da cadeia
aeronáutica e automobilística, como fornecedores da Embraer e da Volkswagen,
além de matérias-primas sustentáveis, como o 'plástico verde', o poliuretano
ecológico e a madeira líquida (plástico desenvolvido com resíduos de madeira,
fibra de coco e bambu).
A segunda etapa do processo de criação da marca foi
conquistar o apoio de designers reconhecidos. "Não basta pagar um
designer. Você tem que seduzi-lo com a proposta da empresa. Eles são peças
fundamentais do sucesso da marca", destaca Franco.
Com o conceito de trazer características locais de produção
e matéria-prima, com a possibilidade de venda para o mundo inteiro, A Lot Of
Brasil formou um time de designers como os italianos Alessandro Mendini e Fabio
Novembre, a eslovena Nika Zupanc e o grupo Pininfarina. Franco também tem seu
projeto para a marca: a cadeira esqueleto feita com madeira líquida.
Para a primeira coleção, a marca reuniu 12 designers e 17
produtos. "Driblamos uma fila de espera de mais de 400 empresas
interessadas em participar dentro da feira principal do Salão de Milão. Fomos
convidados e já temos o espaço garantido para 2014", diz Franco. No ano
que vem, a expectativa é chegar a 22 profissionais e 35 produtos.
Até agora, a empresa já tem 1,5 mil peças encomendadas que
serão enviadas a partir de setembro para Londres, Milão, Rússia, Nigéria, Chile
e Líbano. A loja da marca será inaugurada no mesmo mês na Alameda Gabriel
Monteiro da Silva, rua que reúne lojas de arquitetura e decoração em São Paulo.
A meta para esse ano é atingir 100 pontos de distribuição no mundo e recuperar
o investimento, feito com mais dois sócios, em cinco anos.
A empresa mantém uma fábrica em Indaiatuba, no interior de
São Paulo, e mais seis empresas parceiras para garantir a produção dos móveis.
A estratégia é ganhar escala com a produção industrial e, futuramente, crescer
com franquias de lojas A Lot Of Brasil. "Com a produção industrial,
conseguimos reduzir os preços das peças. Uma cadeira com assinatura de Stefano
Sandonà chegará no varejo por R$ 180. Um sofá do Fabio Novembre por R$ 5,5
mil", exemplifica Franco.
Análise. A professora do Centro Universitário Belas Artes,
Denise Xavier, avalia o projeto da A Lot Of Brasil como positivo e ousado, uma
vez que o País não tem tradição do ponto de vista da produção. "Acredito
que é uma iniciativa tardia de uma certa forma porque existe um mercado sedento
por esse tipo de produto. Temos poucas empresas dedicadas com qualidade. Ou
temos uma peça super elitizada ou uma peça mais comercial, com uma durabilidade
menor e pouco raciocínio de design", destaca.
Para Denise, o uso de matérias-primas alternativas é
positivo para a área e o desafio será introduzir esses produtos em larga escala
via indústria. "O objeto de design ainda é visto como um objeto de
butique. O grande desafio é conseguir fazer uma peça de qualidade, acessível e
ainda com preocupações de sustentabilidade", afirma.
GISELE TAMAMAR, ESTADÃO PME
GISELE TAMAMAR, ESTADÃO PME
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